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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Combate ao tráfico no Rio é 'enxugar de gelo constante'

Coronel da PM acredita que a mais grave das crises atuais é a moral, fruto da extensa corrupção revelada pela Operação Lava Jato

© Fernando Frazão/ Agência Brasil
Acostumado a lidar com situações de crise em suas mais de três décadas na Polícia Militar do Rio, o coronel Paulo Cesar Amêndola, 72, crê que a mais grave das crises atuais é a moral, fruto da extensa corrupção revelada pela Operação Lava Jato e que levou o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) à prisão.

"Quando a população deixa de acreditar nos políticos, cai tudo por terra", diz o coronel, criador do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e atual secretário municipal de Ordem Pública.
Comandando hoje a mesma Guarda Municipal que criou em 1993, na gestão Cesar Maia – com 7.480 agentes, menos da metade dos quais está efetivamente nas ruas –, Amêndola tem expandido a atuação de sua secretaria na segurança pública.
Defende a presença das Forças Armadas na cidade, mas ressalta que elas não servem para ações policiais. Entre as soluções para a guerra contra o tráfico – que chama de "enxugar de gelo constante" –, aponta o uso da inteligência para operações pontuais nas favelas.
O que o sr. acha do uso das Forças Armadas no Rio?
É válido para dar uma sensação de segurança. As tropas vieram para cercar áreas críticas já mapeadas. Mas eles não têm treinamento para fazer ações como a polícia. O militar das Forças Armadas tem a cultura da guerra contra o inimigo, de matar. Isso, na segurança pública, é o caos. A cultura do policial não pode ser essa, o delinquente está no meio de gente inocente. Nas ocupações militares da Maré e do Alemão houve muitas denúncias de violação de direitos.
Sim, por isso agora não vai haver ocupação permanente, como os ministros da Defesa e da Justiça já declararam. Que papel cabe à sua pasta na segurança, neste momento?
Se o município atua bem contra a desordem pública, vai resolver muitas questões. Foi por isso que o [Rudolph] Giuliani [ex-prefeito de Nova York] ficou famoso. Atua na raiz do problema e você tira a sobrecarga da polícia, que não tem efetivo para tudo. Temos ajudado na vigilância, com as câmeras que antes só cuidavam da mobilidade urbana. Resolvemos usá-las para ver também os crimes nas ruas. Visualizamos, avisamos pelo rádio, que tem a mesma frequência da PM, e quem estiver perto, age. A Guarda Municipal vem brigando pelo direito de usar armas não letais. Houve a alteração da lei orgânica do município permitindo o uso, mas uma sentença judicial proibiu. Agora vamos brigar na Justiça. Não é preciso armar a tropa inteira, 70% têm condição de usar os equipamentos, tasers [arma de choque] e balas de borracha.
O sr. acha importante a guarda estar armada?
É importante porque ela tem de ter capacidade para superar todos os tipos de violência. Ela foi criada desarmada em 1993, mas os problemas foram se avolumando. Acho que deveria usar inclusive arma de fogo. O prefeito Marcelo Crivella (PRB) é contrário a dar armas de fogo para a guarda.Ele tem direito à opinião dele, e eu tenho o direito de convencê-lo do contrário.
O Rio já não tem muitas balas perdidas?
O mau emprego da arma não é um problema da instituição, mas de alguns policiais. A arma é essencial em algumas situações, mas a instituição precisa selecionar quem pode empregar essa arma e ensinar quando pode empregar.
O sr. acha que isso está sendo bem feito?
Não. Para portar uma arma de fogo, o agente tem de ter condições psicológicas, treinamento específico e só usá-la como recurso extremo e final. O problema é que se fazem testes psicológicos não específicos para uso de arma de fogo.
Qual o perfil psicológico de alguém que deveria ser autorizado a portar arma?
Um controle emocional a toda prova. Em toda minha carreira, só usei arma três vezes. O policial tem de se preocupar com o cenário em que está envolvido. Se houver a menor possibilidade de um inocente levar um tiro, ele não pode atirar. O secretário de Educação recorreu ao sr. contra a atuação da PM em áreas escolares.Foi para que a polícia cumprisse certos protocolos mínimos: não fazer operações em horários de entrada e saída dos alunos, não ter "caveirão" [veículo blindado] na porta de escola. Não é que o secretário de Segurança ou o comando da polícia não quisessem fazer isso, mas até chegar na ponta, nos 45 mil homens, é difícil. O policial está com o dedo no gatilho do fuzil, recebe tiro da favela, vai dar um montão de tiro em cima de onde eles pensam que vem o tiro. É errado.
Por que a polícia retomou essa lógica de confrontos?
O tráfico voltou com força e se estruturou dentro das favelas. O número de fuzis que têm entrado nas favelas é coisa de louco, aumentou muito. Não há entrada de polícia em favela que não seja repelida a tiro. Aí vem o confronto. Aí é que está o problema: tiro daqui, tiro dali, quem está no meio? Morre o marginal, morre o policial e o inocente paga o preço, algumas vezes.
E como se resolve isso?
Com operações inteligentes. Vai para o local, se infiltra, levanta as informações e faz ações pontuais, com equipes especializadas, sem risco, sem efeito colateral.
Mas isso não é enxugar gelo?
O tráfico substitui os que são mortos ou presos. Se não enxugar, o Rio vira uma geleira, o Polo Norte.
O que o sr. acha da ideia de legalizar as drogas?
Creio que esteja na hora de o Congresso pensar nessa questão. Ainda não tenho opinião formada a respeito, mas [o combate ao tráfico] é realmente um enxugar de gelo constante, não resolve.
O que o sr. achou da recente ação da Prefeitura de São Paulo contra a cracolândia?
Não adianta reprimir a cracolândia em um lugar porque ela migra. É uma questão de saúde, não de polícia. Tem de haver um consórcio de atuação entre a área de Segurança municipal e a de Saúde, para cadastrar essas pessoas, acolhê-las e trabalhar na recuperação social delas.
O Rio também tem cracolândias. Que política tem sido adotada aqui?
Até agora, não temos ação efetiva dessa forma que eu falei. Está sendo estruturado um esquema para isso.
Via...Notícias ao Minuto

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